segunda-feira, 16 de maio de 2016

Fazer mais com menos é realmente viável?

Um dos desafios das ciências econômicas, senão o principal deles, é a alocação dos recursos, ou seja, é a obtenção da melhor combinação do uso dos recursos disponíveis, que são limitados, frente às necessidades crescentes. Por isto, há alguns estudiosos que definem a economia como sendo a "ciência da escassez".

No caso das empresas, os gestores estão sempre à busca de resultados cada vez melhores frente a dispêndios cada vez menores. Isto é o que diz o senso comum: é preciso sempre "fazer mais com menos". Entretanto, como veremos a seguir, existem dois problemas fundamentais neste raciocínio.

David Ricardo
O primeiro problema fundamental: esta lógica só é aplicável até um certo ponto, porque a partir daí, os resultados começam a piorar e o "fazer mais com menos" torna-se uma grande falácia. A teoria econômica explica este fenômeno a partir da Lei dos Rendimentos Decrescentes, elaborada pelo lendário economista escocês David Ricardo (1772-1823), que prevê que o rendimento marginal de um fator de produção decai a cada nova unidade desse fator quando todos os outros fatores permanecem inalterados.

Para um melhor entendimento da Lei dos Rendimentos Decrescentes, imaginemos uma fazenda, que tem como fatores de produção: terra, água, adubo, trabalhadores e máquinas. Esta fazenda tem uma produção "x" e seu proprietário imagina que com mais 1 trabalhador a produção vai crescer. Então, contrata 1 trabalhador adicional e a produção aumenta 10%. Diante do resultado, o proprietário empolga-se, contrata um segundo trabalhador e a produção aumenta mais 9%. Novos trabalhadores são sucessivamente contratados e a produção aumenta a níveis decrescentes (8%, 7%, 6%, etc...), até que chegará um momento em que a produção vai começar a decair. O problema é a fixidez dos demais recursos. É hora de investir em outros recursos.

O mesmo problema acontece ao diminuir os recursos investidos. Pode surgir um resultado positivo no início, uma correção de ineficiências, uma melhoria da relação custo/benefício. E isto é bom, só que não é sustentável de forma infinita ou indefinida, como tentam nos fazer crer. Haverá uma hora em que os recursos já estarão alocados com eficiência extrema. Novos incrementos de resultados só poderão ser obtidos a partir de novos investimentos. 

Apesar disto, o que acontece na prática é que há um poder de sedução muito grande nesta lógica de "fazer mais com menos", afinal, quem não gostaria de ganhar cada vez mais, alocando cada vez menos recursos? Surge agora o segundo problema fundamental: "o retorno é diretamente proporcional ao risco". É isto que diz um importante axioma do mercado financeiro, que frequentemente se confirma. Isto nos indica que o "fazer mais com menos" é uma medida de curto prazo, porque, como política de investimentos, é uma subversão da verdadeira lógica de mercado. É preciso investir para ter resultados.

Claro que, como disse logo no começo deste texto, os recursos são limitados, e, portanto, tem que ser criteriosamente utilizados, mas isto não pode servir de desculpa para fugir da necessidade de investir recursos novos a partir de um determinado momento. Se a empresa avalia, por exemplo, que apesar de estar com demanda crescente, custará muito contratar novos funcionários, que invista na tecnologia e melhore seus processos, para que esse quantitativo de funcionários possa absorver a demanda extra com qualidade, até que chegue o momento em que os investimentos terão de contemplar outros recursos, pois o limite de eficiência a ser ganho com investimentos em tecnologia chegará ao fim.

Austeridade é uma das palavras chave de qualquer gestão, afinal, todo gestor, seja ele público ou privado, tem a responsabilidade de cuidar bem dos recursos, mas assim como a austeridade é chave, o equilíbrio também é, e não vale a pena prejudicar o desempenho apenas para economizar recursos. 

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