sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Futebol: negócios e paixão

O evento de despedida do maior goleiro artilheiro da história do futebol, Rogério Ceni, do São Paulo, me levou a uma profunda reflexão sobre um aspecto do futebol brasileiro, seja como negócio, seja como paixão dos torcedores pelos seus clubes, que é a elevada rotatividade dos jogadores, mudando de clube às vezes em questão de poucos meses.

Rogério Ceni, ao que parece, era o "último dos moicanos" entre os jogadores que mantinham uma verdadeira identificação com seu respectivo clube. Foram 25 longos anos no São Paulo e 1.237 partidas disputadas, sendo 978 delas como capitão do time. Claro que será quase impossível algum jogador de futebol repetir ou superar estas marcas, mas é visível que o futebol brasileiro perde ao não ter mais nenhuma referência como Rogério e o São Paulo ou ainda o também goleiro Marcos e o Palmeiras, apenas para ficar nos casos mais recentes.

Marcos e Rogério: exemplos de identificação

Hoje em dia, o futebol brasileiro vive basicamente de "ídolos de temporada" e não há mais referências sólidas para os torcedores, já que não raramente há casos de transferências para clubes rivais, sem qualquer cerimônia. Os empresários dos atletas, certamente entendem isto como sendo algo positivo, porque esta rotatividade reduz o "ciclo operacional" de seus "produtos" e melhora o giro do seu capital, mas para os clubes, isto resulta em três importantes prejuízos:

1º: Receitas importantes de marketing e licenciamento de produtos deixam de ser auferidas, já que, apesar de remunerar os atletas por direitos de imagem, não é possível estabelecer estratégias mais duradouras;

2º: Os clubes precisam fazer grandes investimentos todos os anos para reformular seus elencos, repondo as saídas de atletas e treinadores, além das multas rescisórias contratuais, e;

3º: Este constante processo de reformulação dificulta e torna honrosas exceções os casos de clubes que mantém a base de seus elencos por dois ou três anos, alcançando assim níveis mais elevados de qualidade futebolística.

Assim, entendo que a qualidade do futebol brasileiro cai a cada ano com esta rotatividade, que, sabemos bem, não é um fenômeno novo.  E quando eu falo em qualidade, não me refiro só ao jogo, dentro de campo, mas também fora, na gestão dos clubes, porque esta alta rotatividade passou a possibilitar uma rede de relações perniciosas entre empresários, jogadores e dirigentes de clubes.

Não há como ter 3 ou 4 "Rogérios" em cada clube brasileiro, mas, com planejamento, é possível que cada um dos 20 ou 30 maiores clubes brasileiros (que somados representam em torno de 90% da torcida) possa formar um ídolo e uma relação de identificação como esta a cada 20 ou 30 anos. Isto nos ajudaria, junto com outros aperfeiçoamentos, a qualificar mais o futebol brasileiro, e devolvê-lo a seu lugar de direto, como protagonista mundial. 

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