sexta-feira, 5 de junho de 2015

Juros: remédio e veneno

A taxa de juros de um país é um elemento da economia que traz em si o cerne de inúmeras discussões, seja por implicar na viabilidade econômico-financeira de projetos empresariais, seja pelo controle da inflação ou do consumo, ou ainda por seu caráter considerado "improdutivo" por alguns, que resulta em retornos financeiros ao fator de produção conhecido como capital.

O Brasil tem sua taxa de juros em um viés de alta, tendo chegado nesta semana a 13,75% anuais, e sempre que os juros aumentam, há uma série de feedbacks negativos, que vem desde os sindicatos, que enxergam nisto um prejuízo ao trabalhador, por inibir o consumo e estimular a aplicação de recursos na dívida do governo, e alcançam também o setor patronal, que indica dificuldades em manter a viabilidade das empresas, tornando o simples financiamento da dívida pública mais atraente.

Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos, a discussão é outra. O prêmio Nobel de economia, Joseph Stiglitz, contesta a validade da manutenção, desde o ano de 2008, da taxa de juros em um patamar ínfimo, entre 0% e 0,25% anuais. Para Stiglitz, isso inviabiliza a formação de patrimônio por parte das classes menos favorecidas, que investem na dívida pública, devido a seu menor grau de risco e de complexidade frente outras modalidades de investimentos.  

Stiglitz ainda ressalta que este patamar de juros reforça a desigualdade econômica, posto que, os americanos com rendas acima da média investem em ações e outros ativos que oferecem uma rentabilidade mais elevada. Já no Brasil, como ainda são poucos os investidores em títulos da dívida pública e a poupança é muito reduzida, a taxa de juros precisa ser elevada em determinados momentos.

Estou trazendo esta dicotomia com o intuito de propor que a discussão saia do lugar comum de que, simplesmente reduzir a taxa de juros é toda a solução para o Brasil, pois isto estimularia cada vez mais o consumo e desestimularia a já reduzida poupança, recaindo em novos surtos inflacionários, o que no fim, penaliza mais as famílias mais pobres, que verão seu poder de consumo já limitado tornar-se cada vez mais restrito.

A principal mensagem que quero deixar é a de que "o que diferencia o remédio do veneno é a dose". O Brasil ainda não pode ter taxas de 2% anuais, pelos seguintes motivos: não dispõe de níveis de poupança adequados o suficiente, o Estado ainda é deficitário e precisa ser financiado (principalmente seu custeio) por recursos extra-arrecadação, e; o país ainda não tem a infra-estrutura nem a ambiência de negócios necessária para que as empresas invistam e as famílias sigam consumindo, sem que isso dispare a inflação.   

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