quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O direito à expressão e a auto supressão...

Tenho observado com preocupação as manifestações nas ruas e principalmente nas redes sociais, as reações contrárias à reeleição da Presidente Dilma Rousseff e contra os contínuos mandatos do PT, que em condições normais completará 16 anos no exercício do poder em nível federal em 2018. Não que eu ache que qualquer governo, de qualquer partido deva ser poupado das exigências populares, mas o que me preocupa é uma linha específica de protestos.

Quando falo em linha específica de protestos que me preocupa, me refiro aos partidários do retorno do regime militar, algo que mesmo para mim, que não sou de esquerda, causa espécie, afinal, naqueles 21 anos (1964-1985) o país foi privado de escolher o Presidente da República e durante parte do tempo, não escolhia também os demais representantes políticos. Além disto, importantes direitos individuais, fundamentais para a vida em sociedade, foram sumariamente suprimidos.

Não dá para defender uma ditadura, nem mesmo quando esta pretendia (ou ao menos assim apresentava-se) impedir que outra ditadura (neste caso, de esquerda) se instalasse, o que eu até acredito que poderia acontecer no Brasil naquele momento, já que, na minha opinião, não havia ali "mocinhos". Fico com o trecho de "Toda Forma de Poder" dos Engenheiros do Hawaii, que diz "...Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada. Yeah, Yeah!..."

E tão grave quanto a defesa do retorno do regime militar, é a postura dos representantes deste tipo de pensamento, que considero de extrema direita e conservador, portanto, diferente da ideologia que defendo, liberal e de centro direita. Vejamos o Deputado Federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), que mais de uma vez manifestou seu radicalismo de forma primitiva, indecorosa e inadmissível para um representante do povo.

O parlamentar em questão foi o mais votado no estado do Rio de Janeiro nas últimas eleições e tem, portanto, um peso político significativo. Desta forma, não deveria ter proposto o fuzilamento de um Presidente eleito pelo povo (o famoso "passar fogo" em Fernando Henrique Cardoso), nem referir-se à Deputada, também eleita democraticamente, Maria do Rosário, como sendo indigna de por ele ser estuprada, como se alguma mulher merecesse isso e como se o desejo sexual masculino devesse alcançar este patamar de bestialidade.

Reagir contra os escândalos que ocorrem no Governo Federal (e não só nele, mas também nos estaduais e municipais), manifestar-se e exigir providências é lícito e é válido, mas daí a querer sucumbir a democracia à uma nova ditadura, vai uma longa distância e por mais que discorde-se dos rumos que o PT e seus aliados possam ter dado ao trato da coisa pública, a democracia nos permite a chance de mudar periodicamente. 

Enfim, defender via manifestações em praça pública um regime militar que se porte ditatorialmente é no mínimo, um contrassenso. É o direito de expressar-se sendo utilizado para pedir que este mesmo direito seja suprimido de novo.  

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